František Rosík nasceu em 23 de novembro de 1927, na pequena aldeia morávia de Malenovice, e desde cedo demonstrou uma forte conexão com os cães, convivendo com cães de caça durante toda a infância. Esse vínculo afetivo e prático com os animais foi o primeiro passo para uma trajetória notável na cinologia da Tchecoslováquia. Morávio de corpo e alma, Rosík desenvolveu ao longo da vida uma reputação marcada pela dedicação e pelo compromisso com o trabalho, além de um espírito generoso e acolhedor — traços que se tornaram sua marca pessoal.
Homem simples, gentil, determinado, e já era chamado carinhosamente de Dedo Rosík (Vovô Rosík) por todos que conviveram com ele.
Sua paixão pelos cães o levou, mesmo sem falar uma palavra de russo, a estudar cinologia militar na remota Alma-Ata, no Cazaquistão — uma república então soviética. Mergulhou nos estudos com afinco, absorvendo o conhecimento baseado na obra de Ivan Pavlov e nos métodos soviéticos de adestramento militar. Concluiu a formação com excelência, tendo como companheiros figuras lendárias da cinologia tchecoslovaca como Karel Hartl e Jaroslav Kuchař. Lá, enfrentou um clima hostil, com temperaturas extremas e treinamentos rigorosos, mas também viveu experiências marcantes como expedições de sobrevivência e contato com a rica cultura cazaque.
Ao retornar à Tchecoslováquia, em 1955, foi nomeado oficial sênior da brigada cinológica da Guarda das Fronteira. No mesmo ano, junto com Peter Kubaška, fundou o primeiro canil não oficial da Guarda, nas dependências da mansão Pálfi, em Šamorín. Ali nasceu a base do trabalho que transformaria para sempre a cinologia mundial. Em 1956, esse canil tornou-se oficial, com o nome protegido “Guarda das Fronteira” - z Pohraniční stráže.
Em 1958, Hartl levou até Šamorín um filhote que mudaria tudo: uma fêmea híbrida, filha da loba Brita com o pastor alemão Cézar z Březové háje. Rosík, ao lado de seu colega Peter Kubaška, ficou encantado com aquele pequeno ser que carregava em si o elo entre o cão e o lobo.
Decididos a ir além do experimento biológico, arriscaram tudo: cargos, reputações e até propriedades, para dar continuidade à ideia de transformar o cruzamento interespecífico em uma raça consolidada.
Na Eslováquia, criaram as primeiras gerações dos híbridos F1 e F2, como Old z PS (F2), Onyx z PS (F2), Odin z PS (F2), Ola z PS (F2) e Osa z Pohraniční stráže (F2). Com tenacidade, enfrentaram tentativas de interrupção do programa e resistiram às ordens políticas contrárias ao projeto. A missão de Rosík era clara: não apenas criar cães, mas moldar uma nova raça — e ele a conduziu com maestria.
Nos anos 60 e 70, tentativas políticas ameaçaram a continuidade da raça, especialmente na Eslováquia. Rosík resistiu firmemente, acreditando no valor do trabalho que estavam realizando.
O homem que conseguiu, através de planos de criação transparentes e estudo de genealogias, transformar um experimento militar em uma raça viável, fenotipicamente coerente e com identidade própria.
Com a ajuda do uso da raça em patrulhamento de fronteiras e a crescente aceitação entre criadores civis, ele e sua equipe conseguiram garantir a sobrevivência e o desenvolvimento do projeto. Em 1969, nasceu a primeira ninhada F2 + F4 após Tira z Pohraniční stráže (F4) e Sito z Pohraniční stráže (F2), reconhecida como base do que o povo chamaria informalmente de Cão Lobo Tcheco (český vlčák).
Na cidade de Malacky, próximo a Bratislava, onde o projeto militar declinava, Rosík teve acesso a uma base genética rica, e foi ali que nasceu Rep z Pohraniční stráže (F3), em 1979 — um cão lobo que ele identificou como o verdadeiro arquétipo da nova raça. Rep z PS (F3) tornou-se o pilar central de um plano de reprodução que, ao longo de cinco anos, impregnou a raça com características fixadas, moldando sua aparência, temperamento e estrutura como conhecemos hoje.
A dedicação dele e de sua equipe não se limitava ao canil: chegaram a providenciar leite e ovos de qualidade para alimentar os filhotes, numa época em que cada ninhada era uma aposta arriscada contra o tempo e o sistema. Sua teimosia, como ele mesmo dizia, foi o que permitiu resistir às investidas políticas que tentavam eliminar os híbridos na Eslováquia.
Mesmo ciente de que os cães lobos não se adaptavam bem à rotatividade de treinadores no serviço militar básico, Rosík acreditava firmemente que a raça tinha futuro. E estava certo. Sua atuação foi decisiva para transformar o experimento de Hartl em uma raça independente e viável.
Com o encerramento definitivo do programa militar em 1982, Rosík tornou-se o primeiro presidente do recém fundado Clube de Criadores do Cães Lobos Tchecoslovaco. Com poucos recursos, em condições improvisadas, Rosík liderava uma geração de criadores com paixão inabalável. Morando em um apartamento no 11º andar em Bratislava, mantinha Rep z PS (F3) em casa — e há quem conte que o via caminhando na borda do terraço, como um gato. As histórias da época são quase épicas: cães alojados em jardins emprestados, ninhadas nascendo em garagens, criadores compartilhando espaços e responsabilidades — tudo isso conduzido pela liderança carismática de Rosík.
Foi assim que nasceram linhagens cruciais como as ninhadas F z Rosikova CS e B z Banišťa CS, ambas com Rep z PS (F3) como pai. Mesmo sem estrutura, com logística improvisada e muitas vezes sacrificando o conforto pessoal, Rosík e seus companheiros criaram os pilares genéticos do que se tornaria uma das raças mais fascinantes do mundo.
Rosík foi um dos membros fundadores do Clube de Criadores de Cães Lobo Tchecoslovaco na República Socialista da Tchecoslováquia, que liderou de 20 de março de 1982 a 1990. Durante sua presidência, o Cães Lobo Tchecoslovaco foi incluído entre as raças caninas modernas, com a perspectiva de reconhecimento mundial, na reunião da Federação Cinológica Internacional - FCI, em 1989. Essa meta foi alcançada dez anos depois - em 1999, o Cães Lobo Tchecoslovaco foi registrado definitivamente pela FCI. Como líder da equipe, Rosík e seus colegas prepararam os documentos relevantes para a aceitação internacional definitiva da raça.
Desde a criação da República Eslovaca independente, ele tem sido o presidente honorário do Clube de Criadores de Cães Lobo Tchecoslovaco na República Eslovaca e um grande divulgador da raça para público. František Rosík foi cocriador do padrão do Cães Lobo Tchecoslovaco. É principalmente graças a ele que a Eslováquia, após a divisão da Federação Tchecoslovaca, tornou-se patrocinadora desta raça.
Mesmo após a aposentadoria, Rosík seguiu sua missão como criador em seu próprio canil “z Rosíkova CS”.
Foram 35 ninhadas da raça sob sua tutela, muitas delas em colaboração com o também cinólogo Peter Krotkovský. Seus cães contribuíram para consolidar a raça não só na Tchecoslováquia, mas em diversos países da Europa.
Até os últimos anos de vida, Rosík era visto com frequência entre seus arquivos, documentos, fotos e memórias — compartilhando, explicando e ensinando sobre o caminho trilhado.
Embora o canil esteja registrado em Prešov, é plausível que tenha ramificações em Hodruša‑Hámre após o desmembramento da Tchecoslováquia. Seu legado é preservado em cães premiados e seu impacto reconhecido por instituições caninas.
Vários cães de destaque surgiram daí, como Gar z Rosíkova CS (vencedor de Best of Breed e World Winner em 1995) , Flit z Rosíkova CS, Tambury z Rosíkova, Bukva II z Rosíkova e outros – com diversos títulos, filhotes e participações relevantes em exposições.
Rosík também foi um grande divulgador do conhecimento. Escreveu artigos, ministrou palestras, deu entrevistas e colaborou com publicações técnicas e históricas sobre a raça. Participou ativamente dos boletins do Clube de Criadores de Cães Lobo Tchecoslovaco da República Eslovaca e deixou um acervo de conteúdo que ainda hoje é referência para estudiosos e criadores.
A cada evento do Clube, lá estava ele, com sua bengala, observando os cães, orientando, aconselhando. Era comum vê-lo discursando sobre o Cão Lobo Tchecoslovaco — sua voz sempre mencionando “Československý vlčák” com reverência. Mesmo com a idade avançada, transmitia paixão e firmeza, deixando claro que seu compromisso com a raça era eterno.
Seu amor era transmitido no olhar, nas palavras, no exemplo. Não buscava glória pessoal, mas sim a consolidação de um legado. O maior ensinamento que deixou não foi apenas técnico, mas ético: uma raça só sobrevive com colaboração, honestidade e dedicação profunda.
O "Vovô" Dedo Rosík sempre considerou a raça Cão Lobo Tchecoslovaco uma embaixadora da boa vontade para a humanidade, porque a raça simboliza e une elementos aparentemente incompatíveis!
Sua esposa Anička Kadnarova, carinhosamente chamada por ele de “Vovó”, após perdeu a visão em 1995, e três ataques cardíacos — ele continuou a cuidar dela, da casa e do seu canil “z Rosíkova CS”, onde criou ao todo 35 ninhadas de Cão Lobo Tchecoslovaco. Com o tempo, contou com a ajuda ativa de Peter Krotkovský, mas nunca se afastou da raça que ajudou a criar, formar e divulgar por toda a Europa.
Quando ela faleceu em 2013, Rosík ficou devastado, mas ainda assim dizia: “Pretendo viver até os noventa.” Infelizmente, partiu dois anos depois, em 1º de julho de 2015, antes de realizar esse último desejo.
Ao longo da vida, František Rosík recebeu diversas homenagens. Em 2009, foi agraciado com reconhecimento internacional no World All Breeds Show em Bratislava. Em 2012, entrou para o Hall da Fama da Cinologia de Serviço Eslovaca. Em 2013, foi mencionado no livro “Cães Eslovacos – História e Dias Atuais” como um dos nomes centrais da criação da quarta raça nacional eslovaca.
No ano seguinte, participou do batismo do livro “História da Cinologia de Serviço da Tchecoslováquia”, que documenta detalhadamente sua trajetória.
Mais do que um militar, um técnico ou um criador, František Rosík foi um homem que viveu para tornar possível o improvável: unir o lobo e o cão, o selvagem e o doméstico, a natureza e o convívio humano. Para ele, o Cão Lobo Tchecoslovaco era uma mensagem de boa vontade à humanidade, uma ponte entre mundos diferentes, construída com inteligência, coragem e amor.
Seu nome está gravado no DNA da raça. Seu exemplo é farol para todos os criadores sérios, que reconhecem a importância da colaboração, da humildade e da paixão verdadeira. A história de Rosík é a história da raça. E enquanto houver um Cão Lobo Tchecoslovaco no mundo, haverá também a presença eterna de “Dedo” Rosík entre nós — como lenda, como mestre e como pai desta raça singular.
