Peter Krotkovský é um dos nomes mais marcantes da história do Cão Lobo Tchecoslovaco. Nascido em Hodruš Hámry, começou sua trajetória como criador com cães da raça Pastor Alemão, sob orientação do renomado Eugen Richnovský. No entanto, sua vida tomaria um novo rumo ao conhecer o "Vovô" Rosík. Desse encontro surgiu uma amizade e uma paixão que moldariam o futuro da raça nacional eslovaca emergente: o Cão Lobo Tchecoslovaco.
Em 1973, fundou o canil "z Krotkovského dvora" e, a partir dos anos 80, passou a se dedicar exclusivamente ao Cão Lobo Tchecoslovaco. Sua primeira ninhada foi com a cadela Agi z Banišť CS, filha dos lendários Rep z Pohraniční stráže (F3) e Tola z Pohraničnej stráže. Ele próprio montou um abrigo improvisado para o parto, num gesto que já antecipava sua dedicação incansável à raça.
Nos primeiros anos da criação, os filhotes ainda apresentavam características muito próximas ao Pastor Alemão, o que intrigava profundamente Peter Krotkovský e František Rosík. Ambos se perguntavam por que, apesar dos cruzamentos entre os híbridos da raça, a prole mantinha um tipo mais próximo do Pastor Alemão do que do Lobo — diferente do desejado e do que se via em exemplares como Rep z Pohraničnej stráže (F3). Observaram atentamente diversos fatores como formato das orelhas, caudas e coloração, mas o padrão indesejado persistia.
Foi Peter quem percebeu que certos sinais morfológicos estavam se perpetuando na reprodução e, então, propôs a Rosík a adoção da consanguinidade como estratégia reprodutiva. Após alguma resistência inicial, Rosík aceitou a proposta e ambos decidiram apostar tudo nas filhas de Rep z Pohraničnej stráže (F3). A mudança surtiu efeito: a nova geração não era ainda perfeita, mas apresentava uma harmonia morfológica muito mais próxima do ideal desejado.
Distribuíram os filhotes por toda a antiga Tchecoslováquia, mas depois de um ano perceberam que eles tinham se "perdido" o contato dos filhotes alguma forma. Foi então que decidiram manter os melhores exemplares de cada ninhada sob seus próprios cuidados, para preservar as qualidades desejadas.
Com o passar do tempo, o número de cães cresceu exponencialmente. Rosík chegou a cuidar de 20 cães, enquanto Peter chegou a ter 60 sob sua responsabilidade. O volume de trabalho era gigantesco — já não eram apenas criadores, mas quase escravos da dedicação que a raça exigia. Peter carregava cerca de 800 kg de carne por semana colina acima, a pé, até Pečelovská, onde nenhum veículo conseguia chegar. Fazia esse trajeto de ida e volta, percorrendo um quilômetro e meio por trechos íngremes, para também abastecer os cães de Rosík.
Apesar das dificuldades, o esforço resultou em linhas reprodutivas estáveis e distintas: Kajkova, Cézarova, Omarova, Orlíkova e a linha direta de Rep z PS (F3). A rotina era intensa: pela manhã, Peter alimentava os filhotes; depois, ia trabalhar.
Ao retornar, muitas vezes ainda vestido com o macacão de trabalho, cuidava da escovação, alimentação e manejo dos cães. Mesmo ocupando o cargo de "diretor", seu verdadeiro posto era ao lado de seus cães — liderando com as mãos, o coração e uma determinação incansável.
Com a possibilidade de selecionar exemplares de alta qualidade a partir de sua própria criação, František Rosík desejava promover a nova raça nacional recém-reconhecida da forma mais ampla possível. Para isso, convenceu Peter Krotkovský a explorar uma nova área: as corridas de trenó com cães, caso a raça não fosse aceita plenamente na cinologia de serviço.
Rosík chegou a viajar até a Áustria, onde investiu cerca de quinze mil coroas na compra de um trenó, arreios e um livro em inglês sobre o assunto. Embora Peter não tivesse lido o conteúdo do livro, passou a treinar os cães com base nas imagens: primeiro puxando pneus, depois carroças, até, enfim, se adaptarem ao trenó. Os cães, inicialmente desconfiados, logo se adaptaram ao novo desafio.
Aproveitando a notável resistência e velocidade do Cão Lobo Tchecoslovaco, Peter tornou-se o primeiro condutor (musher) da Eslováquia a treinar essa raça para corridas de trenós, em um estilo similar ao dos cães nórdicos. Para encontrar três bons puxadores, chegou a treinar até dezessete cães, selecionando apenas os melhores. A partir das fotos do livro, construiu seu próprio modelo de carroça, que considerava mais estável e adequado às condições locais. Ao comparar os tempos de suas equipes com os dados de provas oficiais, notou que seus cães eram, em média, quinze minutos mais rápidos.
Ainda assim, percebeu que os tempos não melhoravam após certo ponto, e investigou a causa. Descobriu que era necessário variar os trajetos, pois os cães, dotados de grande inteligência, memorizavam as rotas antigas. Mesmo com o alto custo logístico, implementou quinze diferentes rotas de 12 quilômetros, alternando-as gradualmente.
Com o tempo, Peter passou a competir em diferentes categorias: iniciou na categoria C (com duas a quatro raças) e posteriormente na categoria B (com cinco a seis cães), sempre em trilhas de até 12 km.
Chegou inclusive a completar uma travessia de 100 km pelas Montanhas Krkonoše com seus cães. Em 1987, participou de sua primeira corrida oficial nas Montanhas Ore, na Moldávia, competindo com outros 35 mushers com raças nórdicas como Husky Siberiano, Samoieda, Malamute do Alasca e até o Cão Boiadeiro Tcheco.
Com três cães-lobo tchecoslovacos – Hura, Hesy e Chlapík, todos do canil Rosík – obteve um impressionante 7º lugar geral. Posteriormente, substituiu Chlapík por Alf, cão de Soňa Bognárová, por apresentar melhor desempenho.
No ano seguinte, por iniciativa de Peter, foi organizada uma corrida nacional da raça na cidade de Kokava-Hája. Marián Balaj, do canil Bal-Mar CS, deu apoio financeiro ao evento por meio da cooperativa agrícola Pokrok. Peter, junto com mushers como Jozef Heršl, Ján Komisár e Daniel Filo, obteve grande sucesso nas corridas nacionais. Venceram duas vezes o campeonato eslovaco, disputando inclusive contra cães de raças nórdicas.
Esses feitos chamaram a atenção da República Tcheca, que passou a criar uma categoria separada de competição apenas para o Cão Lobo Tchecoslovaco, evitando a comparação direta com os cães nórdicos. Apesar disso, Peter lamentava que esse tipo de corrida estivesse desaparecendo com o tempo, pois oferecia um uso funcional e esportivo ideal para a raça, contribuindo para sua evolução.
A criação de Peter Krotkovský se espalhou por todo o mundo. Seus cães vivem hoje em países que ele próprio nunca visitou em vida, representando com excelência não apenas seu criador, mas a essência do Cão Lobo Tchecoslovaco. Ao longo de sua vida, Peter também atuou como comissário de beleza e, em determinado momento, preparou-se para tornar-se juiz de padrão.
Obteve nota máxima na prova escrita, mas foi reprovado na parte oral ao se recusar a fornecer dados percentuais sobre fósforo e cálcio na alimentação de filhotes. Ele argumentou que, com uma dieta natural balanceada, baseada em ossos, cartilagens e carne, o corpo faria esse ajuste por si só — e que, em caso de dúvida, consultaria um veterinário.
A resposta não foi aceita, e ele não obteve a certificação como juiz. No entanto, continuou sendo um respeitado comissário de criação, transmitindo seu vasto conhecimento em eventos na Eslováquia, Itália e Reino Unido.
Reconhecido por clubes de criação dentro e fora de seu país, Peter Krotkovský sempre prezou pela partilha de conhecimento. Por isso, decidiu escrever um livro no qual reúne toda sua experiência e aprendizados acumulados em décadas de dedicação. Para ele, o Cão Lobo Tchecoslovaco é mais do que uma raça — é um elo entre o humano e a natureza, capaz de despertar o fascínio de cinófilos apaixonados em todo o mundo.
Peter Krotkovský obteve reconhecimento internacional significativo em 1990, quando seu reprodutor Cézar by Pavlišin conquistou três vitórias na Exposição Canina Mundial de Brno, sagrando-se campeão mundial. Cinco anos depois, em 1995, durante a 1ª Exposição Canina do Danúbio, em Bratislava, seu canil novamente brilhou.
Na ocasião, foram apresentados quatro exemplares: Omar z Krotkovského dvora (classe de campeões), Moňa z Krotkovského dvora e Vlk z Krotkovského dvora (classe aberta), e a jovem Andy z Krotkovského dvora (classe júnior). Todos obtiveram o primeiro lugar em suas respectivas categorias.
Omar z Krotkovského dvora foi premiado com a nota "Excelente I", tornou-se vencedor da classe de campeões, CAC, BOB, campeão do Danúbio e campeão de beleza. Moňa e Vlk venceram na classe aberta com nota "Excelente I", ambos recebendo o título CAC, sendo que Moňa também foi declarada vencedora geral da exposição.
Andy z Krotkovského dvora venceu na classe júnior, também com nota "Excelente I". Na mesma exposição, outros quatro cães criados por Krotkovský também saíram vencedores em suas classes.
No final dos anos 1980, ele organizou dois torneios de beleza, em Hodruš Hámry e Kopanice, com o objetivo de avaliar criteriosamente as capacidades físicas e mentais dos cães apresentados e sua adequação para reprodução.
Seu canil sempre manteve uma seleção rigorosa, com cães e cadelas de elite que deixaram impacto duradouro na história da raça.
Após uma longa pausa motivada por questões familiares, Peter retomou sua atividade como criador. Em sua fase anterior, manteve exemplares notáveis como a cadela Maxa z Krotkovského dvora, o macho Pax z Krotkovského dvora e a cadela Hera de Ro-Fa. Anos depois, passou a buscar uma nova fêmea com o fenótipo tradicional que tanto valorizava — uma tarefa difícil, diante da escassez de linhagens antigas.
Foi então que iniciou uma colaboração com o canil z Dubničanka, onde encontrou reprodutores com aparência compatível às suas linhas clássicas. Uma jovem chamada Hermiona Oskár Dór chamou sua atenção, e ao saber que ela seria acasalada com o macho Carr Malý Bysterec, decidiu acompanhar o nascimento da ninhada. Dali escolheu a filhote Ambra z Dubničanka, cuja combinação de temperamento e tipo lhe pareceu promissora — uma aposta que se mostrou acertada.
Para Krotkovský, o padrão aprovado é um guia essencial, mas insuficiente por si só. Ele sempre enfatizou que o Cão-Lobo Tchecoslovaco deve, acima de tudo, se parecer com um lobo — e não com um pastor alemão de aparência lupina. Segundo ele, certos traços são irrenunciáveis: uma juba densa, cauda curta e peluda portada de forma espetada, orelhas piramidais pequenas, olhos âmbar oblíquos e uma pelagem bem aderente com colar natural evidente.
A expressão deve ser viva e predatória, e os movimentos, tipicamente lupinos: leves, graciosos e flexíveis.
Krotkovský também observava que a coloração do manto está intimamente relacionada ao ambiente: exemplares criados em zonas urbanas tendem a apresentar tons mais claros, enquanto aqueles criados em florestas ou regiões naturais desenvolvem coloração mais escura — fenômeno que ele relacionava à própria diversidade dos lobos dos Cárpatos.
Para ele, preservar essas características exigia o uso responsável das linhagens formadas. Alertava que o reuso indiscriminado do Lobo dos Cárpatos seria um erro técnico e genético, defendendo, como alternativa, o uso de bancos de esperma, que permitiriam ajustes genéticos pontuais sem comprometer a integridade da raça.
Krotkovský era categórico ao afirmar: perder a aparência de lobo significaria perder a alma da raça. Por isso, preferia um exemplar com cinco pequenas falhas, desde que preservasse o tipo lupino, a um cão tecnicamente perfeito, mas com aparência de pastor.
Apesar de não ter se tornado juiz oficial por divergências com o formato dos exames (onde sua resposta prática sobre nutrição de filhotes foi desconsiderada), Peter continuou atuando como comissário de beleza e consultor de criação por toda a vida. Foi requisitado na Eslováquia, Itália e Reino Unido, sempre pronto para compartilhar seu conhecimento de forma acessível, mantendo o foco na integridade e no respeito à raça.
Ele também organizou exposições, torneios de beleza e avaliações de reprodutores, ajudando a elevar o padrão técnico da criação. Sua atuação como consultor gratuito foi fundamental para o sucesso de diversos canis e para o crescimento qualitativo da base genética da raça.
Peter Krotkovský não é apenas um criador de cães. É um símbolo vivo da resistência, da paixão e da visão a longo prazo. Seu trabalho modelou não apenas linhagens, mas também consciências. Ele inspirou gerações de criadores, despertou debates importantes sobre tipicidade, nutrição, função e beleza, e ajudou a manter acesa a chama de uma raça que poderia ter se perdido no tempo.
Com sua dedicação, o Cão Lobo Tchecoslovaco mantém não apenas a aparência do lobo, mas a alma selvagem, inteligente e resiliente que o define. Peter é, portanto, um dos pilares da história da raça – um homem que moldou o presente com os olhos fixos no futuro.
